Metaverso, Blockchain e Impacto Social

Série de artigos para o projeto Blockchain para Impacto Social

Em maio de 2022, a Universidade de São Paulo (USP) anunciou que será a primeira universidade pública do Brasil a realizar pesquisas sobre o metaverso. A Universidade lançou várias parcerias para estudar a dinâmica social, econômica, de saúde e jurídica do metaverso. A instituição também planeja promover cursos e eventos sobre o metaverso para conscientizar o público e encontrar formas de utilizar espaços virtuais para pesquisa em campos como psicologia, religião e comunicação. Em um segundo momento, aulas serão inteiramente lecionadas no metaverso e isso será apenas o começo de um envolvimento entre as universidades e o essa nova realidade.

Afinal, a USP não é a única instituição brasileira pioneira em seu engajamento com o metaverso. No Rio de Janeiro, segunda maior cidade do Brasil e capital nacional do turismo, um time de futebol profissional firmou uma parceria com a MetaSoccer para lançar um time licenciado no metaverso. O Clube de Regatas Vasco da Gama lançou uma plataforma para que os usuários possam gerenciar seus clubes e gerar renda enquanto jogam no metaverso MetaSoccer. Os usuários receberão criptomoedas MetaSoccer à medida que completarem objetivos tais como vencer uma partida ou vender um jogador.

Universidade brasileira USP conduzirá pesquisas acadêmicas no Metaverso. Fonte: Metafo

A essa altura, você deve estar se perguntando por que uma universidade poderia querer pesquisar o metaverso, porque um time de futebol profissional está criando uma plataforma nesse universo e o que isso tem a ver com o mundo da criptografia. Mas antes disso, precisamos voltar algumas casas, pois talvez você queira saber o que é o metaverso.

I. O que é o metaverso?

O prefixo “meta” significa “relativo a si mesmo ou a algo de qualidade semelhante”, ao passo que “verso” denota um modelo de realidade. Assim, o metaverso é uma realidade virtual que existe dentro do nosso próprio universo. Em um sentido mais prático, ele consiste em mundos artificiais que existem no ciberespaço onde nós, usuários, podemos explorar e interagir com diferentes ambientes e pessoas. Se isso te remete a filmes como “Tron” e “Matrix”, você está no caminho certo.

O metaverso é um conceito inovador, pois diferentemente das experiências digitais atuais, os mundos do metaverso são imersivos graças a diversas novas tecnologias, nomeadamente VR (realidade virtual) e AR (realidade aumentada). O metaverso não consiste apenas em uma tecnologia específica; em vez disso, ele abrange uma ampla gama de tecnologias que permitem que os usuários se envolvam em experiências tridimensionais. Esses avanços permitem que os mundos físico e digital se misturem, e assim podemos ver, tocar e manipular objetos virtuais. Isso pode ser feito com a ajuda de hardware como óculos VR/AR, luvas e controladores. Os usuários do Metaverso podem experimentar eventos históricos, visitar virtualmente outros países e até ver partículas subatômicas diretamente de suas casas.

Outra mudança significativa é a efemeridade. Em nosso mundo físico, nos comunicamos de forma efêmera, o que significa que, quando dizemos algo, alguém pode ouvir o que dissemos, mas não nenhum registro disso permanecerá no futuro. Por outro lado, os e-mails ou mensagens de texto trocados pela internet criam registros que podem ser revisados e modificados. O metaverso reflete melhor nossa experiência da vida real, pois nesse universo as conversas serão efêmeras e mais semelhantes às conversas cara a cara.

Assim, ele expandirá as possibilidades de experiências. Nossos avatares podem fazer ioga de manhã, ir a um escritório virtual à tarde e saltar de paraquedas em uma ilha para jogar uma partida de Battle Royale à noite. Como os ambientes do metaverso não exigem presença física, as experiências dos usuários serão mais rápidas e dinâmicas, permitindo que eles entrem e saiam de diferentes mundos virtuais conforme desejarem.

Portanto, embora inicialmente possa parecer assustador ouvir este termo, especialmente considerando a frequência com que ele tem sido empregado, é essencial entender que o metaverso representa basicamente uma nova maneira de utilizar tecnologias de software e hardware para interagir com outras pessoas. Ou simplesmente, trata-se de um ambiente virtual que emula espaços físicos, permitindo uma experiência ainda mais imersiva do que a internet atual e uma maior variedade de espaços a se explorar.

II. O que é blockchain e o que ela tem a ver com o metaverso?

O metaverso também interagirá com um conjunto de novas tecnologias alimentadas por blockchain. Especialistas em tecnologia identificaram a blockchain como um dos fenômenos mais inovadores desde a invenção da internet. A blockchain emprega tecnologias como criptografia assimétrica, funções de hash e mecanismos de consenso para proteger transações em um ledger (“livro-razão”) distribuído e descentralizado. Assim, ela possibilita transações rápidas e eficientes em uma rede ponto a ponto que não depende de intermediários tradicionais, como bancos.

Mas antes de mergulharmos em como a blockchain irá interagir com o metaverso, precisamos entender noções básicas por trás dessa tecnologia. A blockchain alimenta um conjunto de novas aplicações que vão de NFTs a criptomoedas e CBDCs (confira nossos textos Introdução à Blockchain, Introdução a NFTs, e Introdução ao Dinheiro/Criptomoedas, para se inteirar sobre os princípios básicos).

As aplicações da blockchain variam de criptomoedas populares como o Bitcoin até arte digital em forma de NFTs. Essas novas formas de pagamento e propriedade digital serão uma parte importante dos mundos digitais no metaverso.

As compras no metaverso podem ser alimentadas por pagamentos baseados em blockchain e propriedade digital baseada em NFT. Por exemplo, um usuário pode experimentar uma camisa digital no metaverso por meio do avatar do usuário. Este avatar seria uma representação digital do usuário físico permitindo que o usuário saiba se uma camisa física veste bem através de um avatar digital. Isso possibilitará que o usuário encomende uma camisa no mundo físico depois de experimentá-la com seu avatar. Da mesma forma, esse usuário poderá comprar uma camisa física por meio de um pedido on-line e ter uma versão digital da camisa alimentada por um NFT que atribui a propriedade desse item específico ao usuário. Além disso, um usuário poderá pagar pela camisa usando uma criptomoeda como Bitcoin ou uma stablecoin como BRZ ou Tether.

III. O Metaverso e o Impacto Social

Embora ainda esteja em seus estágios iniciais, o metaverso poderá trazer múltiplos avanços para a igualdade social e promover maior acessibilidade. Este conceito tem o potencial de desmontar as barreiras geográficas e financeiras pois suas tecnologias permitem que os usuários explorem uma ampla variedade de ambientes com a ajuda de hardware de realidade virtual e/ou aumentada.

A educação será um dos setores mais impactados. Os professores poderão visualizar com mais facilidade ideias complexas e ampliar microscópicos, como células humanas em uma aula de anatomia ou ensinar os fundamentos do átomo em uma aula de física. Isso permitiria mais interação e uma compreensão mais profunda. Da mesma forma, os alunos também poderão visitar virtualmente diferentes épocas e lugares, desde o Período Jurássico até a Grécia Antiga, e experimentar um vivência simulada dos momentos históricos que estão estudando. O metaverso poderia democratizar a educação, ajudando os alunos a acessar educação de nível internacional a partir de qualquer lugar do mundo.

Além disso, o campo da saúde também poderá ser significativamente afetado pelos avanços do metaverso. A expansão do uso de ambientes virtuais promoverá avanços na telemedicina e maior acessibilidade. Além disso, pessoas com deficiência motora poderão se envolver em experiências outrora inacessíveis, ao passo que indivíduos fisicamente aptos poderão usar plataformas para entender melhor como uma deficiência motora afeta a vida cotidiana. O treinamento médico baseado em realidade virtual também se tornará mais acessível caso as tecnologias médicas ensinadas metaverso se tornarem mais presentes em escolas e hospitais. Por exemplo, salas de cirurgia virtuais permitirão que estudantes e cirurgiões pratiquem procedimentos complexos e refinem sua precisão com riscos limitados. A realidade aumentada irá aprimorar a visão dos médicos, facilitar o acesso às informações e melhorar a precisão cirúrgica em operações reais.

Da mesma forma, uma área crescente de startups de impacto social também busca aproveitar o metaverso. Andres Bilbao, cofundador da Rappi , um dos principais aplicativos de entrega da América Latina, criou a Invert, uma startup focada na conservação das florestas tropicais na Amazônia. Utilizando mecanismos tradicionais de financiamento, como biodiversidade e créditos de carbono, a Invert busca comprar propriedades de terra na região amazônica para proteger o bioma. A equipe da Invert também tem estudado como podem criar uma representação digital desse terreno no metaverso e atribuir NFTs ao terreno. Eventualmente, eles poderão vender esses NFTs para aumentar o capital destinado à conservação da floresta tropical e ajudar as pessoas a aprender mais sobre a flora e a fauna amazônica. A Invert procura emular a Amazônia física no metaverso para que os proprietários de NFTs emitidos pela Invert possam interagir digitalmente e aprender sobre essa região e sobre esforços de conservação.

De forma geral, um dos maiores impactos potenciais do metaverso será promover a acessibilidade no sentido físico, geográfico e financeiro. As barreiras nessas áreas podem se tornar menores pois os ambientes digitais podem emular, com alta precisão, quase qualquer cenário do mundo real.

IV. Os desafios pelo caminho

Como vimos, o metaverso poderá trazer muitas mudanças positivas. Porém, ele também traz consigo desafios e riscos significativos que devem ser estudados e abordados. Sem mecanismos adequados de políticas e conscientização pública, o metaverso poderá trazer consequências nefastas que limitarão seus benefícios. Os desafios são muitos, mas por ora vamos nos concentrar em saúde/segurança, privacidade, interoperabilidade e inclusão.

Saúde e Segurança

Muitas das preocupações relacionadas a saúde e segurança no metaverso envolvem considerações semelhantes para a própria internet, embora com risco aumentado devido à capacidade do metaverso de emular cenários do mundo real com precisão aprimorada. Por exemplo, o vício digital tem sido um transtorno comum, causado pelo aumento do uso de smartphones, internet e, potencialmente, do metaverso. O engajamento digital pode estimular a dopamina, o “hormônio da felicidade”, em nosso cérebro. Isso pode acontecer quando recebemos uma mensagem positiva ou notificações através de aplicativos de mídia social. Dependendo da frequência, o cérebro pode se acostumar e eventualmente se viciar nos estímulos agradáveis decorrentes de aplicativos digitais. Notificações de mídia social, videogames, compras on-line e investimentos lucrativos disparam esse tipo de resposta de prazer impulsionada pela dopamina em nosso cérebro e o metaverso envolverá uma combinação potencial de todas essas formas de engajamento digital. Uma vez que as interações virtuais se tornarão mais intensas e realistas no metaverso, também há um risco aumentado de dependência. Desafios adicionais de saúde/segurança envolvem moderação de conteúdo e saúde mental do usuário, questões que se tornarão cada vez mais urgentes devido à capacidade do metaverso de replicar cenários do mundo real.

Privacidade

As preocupações relacionadas a privacidade precisarão ser adaptadas, pois novas tecnologias se basearão em ferramentas ainda mais poderosas de coleta de dados em comparação com a internet atual. Por exemplo, as empresas do metaverso poderão acessar movimentos oculares realizados usando headsets de realidade virtual. Tais movimentos poderão fornecer insights críticos sobre as preferências do consumidor e publicidade. Assim, os dispositivos poderão antecipar informações e preferências pessoais íntimas que as pessoas podem não querer compartilhar com terceiros. Os decisores políticos, empresas privadas, anunciantes e usuários devem ser cuidadosos e criativos ao pensar como a privacidade será protegida no metaverso, devido ao seu maior potencial de coleta e inferência de dados. As empresas do metaverso precisarão ajudar os usuários a entender como seus dados estão sendo usados e oferecer a eles maneiras de controlar sobre o que está sendo compartilhado.

Interoperabilidade

A interoperabilidade é a capacidade de diferentes sistemas se comunicarem entre si, permitindo que serviços de uma plataforma sejam acessados por outras. A internet é um sistema interoperável porque qualquer pessoa pode usar protocolos da web para navegar em aplicativos da rede. Promover a interoperabilidade em diferentes realidades virtuais é fundamental para garantir que todos possam acessar o metaverso e colher seus benefícios, independentemente do equipamento que utilizem. O metaverso será construído por diferentes empresas que terão seus próprios mundos digitais. Pense em cada empresa como uma ilha distinta que fará parte de um território maior chamado metaverso. Os usuários provavelmente terão que fazer login nessas ilhas distintas e a maioria dos especialistas vê o futuro do metaverso como um grande país com ilhas distintas nas quais os usuários poderão entrar e sair com seus avatares ou outras personas digitais. Esse tipo de futuro interoperável será bastante semelhante ao funcionamento da nossa internet atual.

Sem interoperabilidade, os usuários seriam divididos pelos diferentes sistemas operacionais e plataformas de realidade virtual, adiando a expansão da acessibilidade. A interoperabilidade também é benéfica para as economias que operam dentro do metaverso, pois sistemas integrados permitirão que os usuários explorem diferentes metaversos a partir de um único avatar, transferindo compras digitais feitas em uma plataforma para outras. Isso pode simplificar o processo de entrada em diferentes realidades virtuais e levar à negociação aberta de itens digitais em várias plataformas.

Inclusão

O metaverso é equipado com um grau impressionante de precisão para os usuários, mas requer conexões de internet ultrarrápidas e hardware poderoso, como headsets. Sendo assim, áreas com acesso limitado à internet ou que não disponham de dispositivos como headsets não poderão aproveitar os benefícios do metaverso. Esse cenário poderá agravar ainda mais a exclusão digital, que já é uma grande preocupação em nossa infraestrutura de internet atual. Os governos precisam trabalhar com empresas de tecnologia para reduzir o preço do hardware e investir na infraestrutura de conectividade necessária para que os usuários possam se envolver com os benefícios desse novo universo.

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Estamos ansiosos para colaborarmos com você por meio da Blockchain For Social Impact, uma iniciativa do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) para melhorar o acesso à educação sobre metaverso e blockchain e discutir o potencial socioeconômico dessa tecnologia.

Caso deseje colaborar com o projeto, envie um e-mail para: mzia@jd21.law.harvard.edu.

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*Mohammad Zia é um International Fellow especializado em governança e inclusão financeira nos setores de blockchain, criptomoedas e fintech. Mohammad é doutor em Direito pela Harvard Law School, mestre em Políticas Públicas pela Oxford University e formado pela Universidade de Maryland. Mohammad é apaixonado pelo tema das soluções tecnológicas aplicadas aos desafios econômicos e jurídicos em mercados emergentes. Ele fala sete idiomas e já visitou mais de 50 países.

** Ex-aluno da Latin America Leadership Academy (LALA).

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O Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio estuda o impacto e o futuro da tecnologia no Brasil e no mundo. — www.itsrio.org

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